Curiosidades Reflexão

DISCURSO COLAÇÃO DE GRAU DIREITO PUC 2012/2 – COMISSÃO “AD INFINITUM”

Escrito por Lara

Eu mudei de área: abandonei o Direito para me dedicar à sala de aula. Evidentemente, no entanto, isso não me impede de reconhecer o imenso poder-dever desses profissionais da Justiça, os quais, aliás, vêm providenciando uma guinada histórica em nosso país.

Quando me formei em Direito, fui a oradora da turma e elaborei um discurso muito sincero sobre o doce-amargo fardo de se operar a Justiça. Venho agora dividi-lo com vocês. Beijos!

 

DISCURSO COLAÇÃO DE GRAU DIREITO PUC 2012/2 – COMISSÃO “AD INFINITUM”

“Boa noite a todos. É com muito prazer e emoção que falo em nome desta turma, pois sei que os sentimentos aqui emergentes neste momento são de magnitude infinita e transbordante, mas tentarei externar um pouco do que agora nos passa.

O Direito é a ciência que veio para amortecer a animosidade humana. Um amante exigente, que demanda esforço, capacidade, humanidade e fé. É o marco que transpõe a autotutela e busca a civilidade por meio de palavras e argumentos, tornando-nos menos bichos e mais gente.

E é com a enorme responsabilidade de carregar uma ciência tão grandiosa que nós, garotos e garotas com em média 18 anos, adentramos a faculdade e então, compelidos a amadurecer, sentimos, sem muita cerimônia, o peso do compromisso que exige esta profissão tão prematuramente escolhida por nós.

Superada a fase de escolha deste companheiro, agora nos incumbe trilhar a utilidade que lhe emprestaremos. O Direito, por meio de seus profissionais, é o escudo protetor do sagrado manto da dignidade humana, dos desejos incontidos de que as coisas se ajeitem e as diferenças se esclareçam. Os labutadores que o carregam, no entanto, não têm o poder de ser donos da Justiça, mas serão eternamente fadados ao dever de buscá-la. Esse é nosso fardo, amigos. Nosso doce-amargo fardo.

Acreditemos no poder transformador que nossa profissão carrega, bem como em sua aptidão nata para alcançar a justiça. E que esta nobre jornada seja coroada com o tempero da sensibilidade, ponderando-se as palavras da lei, pensando-as criticamente: a quem se destinam? Em que contexto foram gestadas? E, antes de tudo, busquemos a justiça por trás daquele arranjo de letras nem sempre inteiramente bem intencionadas, transpondo com traquejo e honestidade os muros herméticos que o Direito tende a construir. Para isso, não percamos a fé e a coragem nas transformações ousadas, tendo sempre o cuidado de vislumbrar que coragem não é ausência de medo.

Trago oportunamente a filosofia de Nelson Mandela, segundo a qual “destemor é estupidez”. Contam os amigos próximos a Mandela que durante um voo entre duas cidades da África, em um bimotor, uma das hélices do pequeno avião parou de funcionar. Mandela, percebendo aquilo, contatou seu segurança mais próximo, chamado Mike, para que ele perguntasse ao piloto qual era o real estado de perigo em que aquelas pessoas se encontravam. O piloto informou que seria necessário o posicionamento de caminhões de bombeiros e ambulâncias para o caso de algo dar errado. Mike confessou, dias depois, que a única coisa que o impediu de se desesperar foi olhar para o semblante de Mandela e perceber que ele mal tirara os olhos do jornal durante a tensa e cambaleante aterrissagem. Mais tarde, quando perguntado por um amigo sobre como de fato havia se sentido durante o voo, Mandela respondeu dramática e francamente, como lhe era de costume: “Homem, eu estava morrendo de medo lá em cima!”. Coragem, portanto, segundo Mandela, não é ausência de medo. “Coragem é não deixar o medo estabelecer a derrota”.

Caros futuros juízes, promotores, advogados, procuradores e servidores de qualquer espécie, miremos para o sol. É necessário isso, pois doar-se ao Direito é compreender que nunca mais se ficará em paz, porque, acreditem, ele abre os olhos para injustiças que nunca se imaginou serem vistas. Mas, uma vez vistas, a convivência com elas passa a ser insuportável até que algo seja feito para contê-las. Socorro-me aqui, tanto pelo peso do contexto político atual, quanto pelo louvor das palavras, proferidas pelo presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, “eu não costumo silenciar quando presencio algo errado”.

E, neste momento, meus amigos, suplico para que não sejamos “espertos” demais. Não sucumbamos às sedutoras facilidades do ganho fácil e rápido. Em um país que cultiva a malandragem como traço cultural e onde o trabalho não raramente é insuficiente para trazer o mínimo de dignidade, sejamos bravos o bastante para trilhar passos mais humanos e menos vaidosos, pois que a vida não mede as vitórias pelos resultados obtidos, mas pelos caminhos percorridos para buscá-los.

Não nos esqueçamos, senhores, de que, enquanto estudávamos, sangue inocente jazia sob os auspícios da injustiça. E se tínhamos o dever cívico e moral de protegê-lo, agora temos ainda o dever ético e profissional de fazê-lo. E, como se o pedido fosse pouco, a fim de tornar o percurso mais leve e autêntico, sugiro ainda, citando o lamento febril de Manuel Bandeira, que fujamos do “lirismo comedido, do lirismo bem comportado do funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor”. Só para variar um pouco.

Festas homéricas. Hábitos oníricos. Essa fase poderia nunca mais acabar, esse mágico período em que descobrimos que não basta existir, é preciso viver. Mas agora chegou oficialmente o dia a partir do qual subscreveremos nossas próprias escolhas. Para chegar até aqui, no entanto, contamos com o inestimável apoio daqueles que são nossos verdadeiros heróis.

Aos queridos pais, fica a certeza de que nunca poderemos exteriorizar a imensidão de nosso amor e de nosso agradecimento. Aos avós, tios, irmãos e demais familiares, bem como aos cônjuges e namorados, agradecemos pelo indispensável e constante apoio. Vocês, família de sangue e afeto, foram e continuarão sendo nossa Pasárgada particular, nosso refúgio e alicerce.

Quanto a vocês, caríssimos professores, saibam que o poder de cada um é o mais vultoso que se pode imaginar. Talvez vocês nunca saibam o quanto são amados, avaliados, citados, lembrados e comentados. Vocês carregam a imensa tarefa de tirar a venda de nossos olhos, de nos fazer aprender matérias complexas, sopesando magicamente as palavras, a fim de respeitar os limites de nosso parco entendimento. Nossos pais espirituais, cicerones de caminhos por vezes trôpegos, confusos, desenganados ou iludidos. Nossos mais sinceros agradecimentos por todo o esforço. Esperamos orgulhá-los com conquistas não muito distantes.

E vocês, meus preciosos amigos… Muito bem resumiu Abraham Lincoln quando disse que “a melhor parte da vida de uma pessoa está em suas amizades”. Meus queridos, nós passamos por tanta coisa juntos… Dividimos dúvidas, anseios e horizontes. Compartilhamos risos e ritos. Aliás, compartilhamos ritos de todas as espécies: ordinários, sumários, sumaríssimos, ritos especiais… Especiais ritos de passagem pelos quais aprendemos a caminhar. E caminhamos juntos. E aqui estamos juntos. Comemorando juntos. Futuros colegas e, alguns, para sempre amigos. Compartilho aqui do borbulhante inconformismo do jornalista Paulo Sant´Ana: “se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos.”  Vocês, queridos, puramente vocês, já teriam valido toda a faculdade…

E, por fim, para coroar esse momento sublime, peço vênia para lembrá-los novamente de que agora ostentamos o poder-dever de perquirir o justo, sobre as bases da ética e da astúcia medida. Dito isso, trago as palavras do mestre Rui Barbosa: “só o bem neste mundo é durável, e bem, politicamente, é toda justiça e liberdade, formas soberanas da autoridade e do direito, da inteligência e do progresso”.

Em nome da turma, muito obrigada pela atenção. Tenham todos uma excelente noite.

Lara Brenner da Rocha Vasconcelos Queiroz

 

PS.: Aqui tem o link para o discurso no YouTube https://www.youtube.com/watch?v=0BgBXkTNbBY

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