Contos Reflexão

A MORTE

Escrito por Lara

No último dia daquele ano, todas as cores, aromas e sabores decidiram se reunir em única festa. A marchinha de carnaval ribombava impiedosa nos ouvidos festeiros, trazendo consigo renovada esperança iludida aos incautos que cercavam o homem de cabeça branca e alma enegrecida.

Ninguém sabia, mas, no último dia daquele ano, o homem tomou a mais certeira decisão de sua vida: iria se matar.

A compreensão do que decidira se espalhou como magma quente, invadindo com determinação os recôncavos de suas frustrações abafadas. Ele merecia morrer. Merecia morrer e ser enterrado como Mozart, pensou, em uma vala comum, sem a menor cerimônia. Ora, mas que presunção. Merecia morrer e sumir, para não ocupar espaço. Talvez o enterrassem em pé, em um pasto qualquer, para que adubasse um metro quadrado de capim, quem sabe. Certamente seria sua maior utilidade até então. Entristeceu-se com a cena.

Mirou as palmas das mãos, percebendo-as como se visse pela primeira vez. As linhas eram fundas e bem definidas, dessas que uma cartomante desavisada leria e preveria: “você será um grande e forte líder”. Permitiu-se sorrir um pouco da ironia. Em quarenta e nove anos de existência, havia sido nada mais do que uma sombra, um arremedo trêmulo e contido, enigmático em seu sorriso amarelo, jogado no rosto sempre vermelho, fosse por vergonha, fosse por raiva.

Enquanto as pessoas ao redor festejavam a chegada do ano novo, o homem arquitetava como seria seu funeral. Queria lírios e faixas saudosistas, mas, acima de tudo, queria um epitáfio daqueles de filme, em que se pudesse ler “aqui jaz um homem bom, caridoso e honesto”. De onde estivesse, vigiaria seu jazigo para manter aquelas palavras sempre lustrosas. O homem queria deixar saudade.

Pensou naqueles que o rodeavam quotidianamente: filhos, esposa e meia dúzia de colegas de trabalho. Em lampejo de honestidade, assumiu para si que nenhum deles tinha motivo para lhe escrever um epitáfio. Talvez nem fossem a seu velório. O velório de uma sombra. Não.

Serviu-se um pouco de gim barato. As gargalhadas vinham da varanda, enquanto ele, sozinho, planejava sua morte na sala -de -estar de sua própria casa. Queria algo dramático, mas não muito. Apenas o suficiente para que concluíssem que era um homem corajoso e não apenas desesperado. Descartou saltar do prédio. Muito chocante. Além do mais, como moravam no 5º andar, correria o risco de se humilhar em eterna tetraplegia, prendendo-se para sempre naquele corpo miserável. Enforcar-se? Talvez… Pensaria melhor.

Sedento pelo desfecho zeloso e florido, fez alguns cálculos. Faltavam três meses e meio para que completasse cinquenta anos. Nesse meio tempo, calcularia seus movimentos durante todo o dia, a fim de deixar boas impressões e saudade. Queria lágrimas sinceras. Sentir-se-ia deveras humilhado se visse sua lápide inundada por lágrimas de carpideiras.

Os primeiros raios do ano chegaram à janela do homem com um novo frescor. Eram mórbidos e promissores, bruxuleando pelas cortinas escuras, em promessas de dor e redenção. Colocou o par de chinelos rasgados para ir à padaria, mas retornou antes mesmo de cruzar aporta para trocá-los por uns mais apresentáveis. A atendente cumprimentou-o secamente ao perguntar qual era o pedido. Lutando contra o ímpeto da grosseria, tentou ser simpático ao pedir meia dúzia de pães e um litro de leite fresco, mas a mulher nem pareceu notar a tentativa. Certo de seu propósito, forçou um sorriso e até fechou levemente os olhos para parecerem sinceros. “Ele sorria com os olhos”, diriam em seu velório. “Obrigado”, disparou exibindo os dentes. A mulher se deteve por um segundo a mais naquele sorriso. Respondeu que não era nada, que voltasse sempre. Perguntou-lhe o nome. Meu Deus! Ela queria saber seu nome. “João”, disse simplesmente. “Meu nome é João”. “Até amanhã, João”.

O homem não acreditava que havia sido tão fácil. Ele era João. João, João, João. Repetiu tantas vezes que lhe pareceu estranho. João Melão. João Babão. João Cara -de -Pão. Mirou os pães que levava consigo. Quem comprou pão? João.

Chegou em casa meio cansado da exaustiva experiência, porém, ainda assim, disposto a seguir o seu plano. Era um homem de palavra. Em vez de entregar as compras à esposa, decidiu arrumar a mesa para que a família ficasse junta por um momento.  O café estava servido. Chamou um a um. “Trouxe um pão quentinho”. Um filho olhou de soslaio, a mulher deu um pigarro duvidoso. O outro filho, por sua vez, deteve-se por um breve instante, mas logo se juntou ao pai, agradecendo timidamente.

Comeram em silêncio, como de costume, até que o homem decidiu falar. “A padaria aumentou o preço do leite, vocês viram?” – disse em uma voz que julgara descontraída. A mulher olhou-o por segundos, parecendo procurar por algo errado, mas logo respondeu que não tinha reparado. “Sempre compro muitas coisas de uma vez, não reparei”, ela disse. “É, a inflação está chegando mesmo” – disse o filho que mais cedo não lhe respondera nada.

O homem repassou o diálogo várias vezes no caminho para o trabalho. Em meio a tantas vozes no metrô, só conseguia ouvir a de sua família conversando. Eles realmente haviam respondido, o que significava que o ouviram de verdade. Naquele momento, em meio a ombros inquietos e sacolejos inconvenientes, tomou uma decisão. Durante os próximos três meses e meio, aquele seria seu tom descontraído de conversa. “Ele era pacato e gentil”, diriam em seu velório.

Na usina, enquanto encaixotava objetos diversos, aventurou-se a comentar sobre a inflação com o colega do lado. “O leite está mais caro”, disse novamente. Um breve tremor pareceu tremelicar de leve a cabeça do colega quando ele o olhou de volta. “É… A inflação está aí” e saiu de perto logo em seguida.

Não foi como planejara. O homem ainda queria ter comentado que a padaria perto de sua casa fazia um pão muito gostoso, caso quisesse experimentar…ainda teria mais três meses e quatorze dias para deixar no colega o desejo de enviar uma coroa de flores ao seu velório. Ele tinha uma condição financeira boa, já que morava sozinho e não tinha filhos. Talvez até se animasse a enviar -lhe um arranjo de lírios. “A inflação deve ter chegado aos lírios também.”

O homem voltou para casa pensativo. Pediu licença e disse “obrigado” várias vezes: no metrô, na banca de jornal, na recepção da usina. Alguns responderam, outros não. Alguns sequer olharam de volta. Estava cansado de ser gentil. Precisava dormir naquele exato momento, mas ainda assim reuniu forças para passar em uma pequena banca de flores no quarteirão de sua casa. Pediu uma única rosa envolvida em um plástico verde. “Cinco reais”. “Obrigado”. “Por nada, seu João”. “Como você sabe que me chamo João?” “Está escrito em seu crachá”. “Ah, sim. Obrigado”. “Por nada”. “Até mais.”

Encaminhou-se para casa, com a rosa pendendo suculenta e convidativa. A esposa fazia o jantar e não percebeu quando ele chegou. Pé ante pé, chegou bem perto, por trás, e colocou a rosa frente a seu rosto. “Para você”. A mulher ficou lívida com o susto e chamou por Santa-Maria-Mãe-de-Deus-Senhor-Jesus-Cristo. O homem assustou-se com o susto e ambos sorriram um para o outro, gargalhando impulsionados pela adrenalina do imprevisto. A esposa estava gargalhando com ele. Ele conseguiu ver sua amígdala dançando com a risada, o peito arfando e covinhas se formando nas bochechas chupadas. Ele não a fizera sorrir, aquilo não era um sorriso. Ele a fizera gargalhar.

Entregou-lhe a rosa. A esposa ficou séria de repente. “Aconteceu alguma coisa?” “Alguma coisa o quê?” “Não sei, qualquer coisa.” “Não. Eu só vi essa rosa e me lembrei de você”. “Obrigada…é linda!”. “Por nada.” Ela lhe beijou a têmpora antes de se virar para dormir.

Pelos próximos três meses, o homem conversou com mais pessoas do que havia feito em toda sua vida. O porteiro de seu prédio se descobrira aidético, mas não estava pronto para contar aos filhos. O colega ao lado era ranzinza, mesmo quando recebia aumento, mas sempre sorria com afeto ao falar com a esposa pelo telefone. Ela morava no interior e eles tinham dois cachorros: Max e Vera. A mocinha da padaria não tinha notícias da mãe há dois anos, o que não a incomodava, já que se tornaram distantes após o suicídio de seu pai. Em casa, descobriu que a esposa não gosta de ter nome composto, achava coisa de gente mais velha. Um dos filhos estava namorando uma professora e o outro tinha leve dormência na perna esquerda sempre que ficava sentado muito tempo.

De repente, o homem faria aniversário no dia seguinte. Os dias haviam passado tão rápido, que conferiu o calendário algumas vezes até se convencer de que estava a menos de vinte e quatro horas da morte. Encaminhou-se sozinho à igreja para pedir uma bênção ao padre. Queria se sentir abençoado e divino em seu grande dia. No caminho, imaginou novamente o velório com coroas de lírio e uma lápide bonita. Estranhou ao perceber que já não mais enxergava a cena de dentro do caixão. De uns tempos para cá, passara a vê-la como um espectador, um convidado dividido entre curiosidade e lamentação. O padre lhe entregou a hóstia vagarosamente. “Paz de Cristo.” “Amém. Obrigado.” Ajoelhou-se em um dos bancos e entoou baixinho os alegres cânticos clericais como mantras protetores. Somente abriu os olhos quando quase todos já haviam ido embora. Subitamente, não sabia se tinha sonhado, ou delirado, ou morrido por um intente, mas algo estava fora do lugar. Apertou com força a madeira do banco à frente.

Estava com tanto calor que sentiu as gotas de suor brotando das têmporas, da nuca, de todo o corpo. Sentiu-se tão vivo e inquieto, que seus pés começaram uma dança ritmada pelo nada, sem sentido, como loucos. Apenas se mexiam como se tivessem vida própria, dissipando energia retesada.

João. João. João. “Meu nome é João. Meu nome é João e esta é minha dança. Tenho um jeito descontraído de conversar e gosto de saber sobre a vida dos outros. Elas também gostam de me contar. Meu nome é João e tenho uma família que conversa. Eles conversam. Meu nome é João e tenho um trabalho. Seja bem-vindo, João. Obrigado. Por nada.”

No dia de seu aniversário, João olhou da janela do quinto andar, bisbilhotou a gaveta de facas na cozinha, depois pegou um cinto de couro, afivelou-o em volta do pescoço e sentiu o frio correr-lhe a espinha. Cuidadosamente, João enrolou e guardou o cinto. Tinha uma execução para fazer naquele dia. E então, sem cerimônia, João executou o homem. Sem cerimônia, matou com gosto a sombra, o arremedo trêmulo e desumano que fora até então. Mirou as palmas das mãos, compreendendo a leitura que nenhuma cartomante jamais fizera, mas acertara.

João era um forte.

Do metrô, viu um muro pichado com letras quase incompreensíveis. Esforçou-se para ler, mas só compreendeu uma parte: “seja bem-vindo”.

Não precisava de mais. Acariciou os vincos das palmas novamente. “Seja bem-vindo, João!”

 

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