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As pequenas coisas que tornam alguém realmente sexy.

Closeup of smiling man wearing eyeglass
Escrito por Lara

Se há uma coisa maravilhosamente estúpida na internet é bisbilhotar listas de superlativos: melhores livros, alimentos mais calóricos, pessoas mais influentes, maiores gafes, melhores clipes, bichos mais estranhos… seja o que for, meu radar de internauta compulsiva se rende de imediato. Mas recentemente uma lista em especial e até certo ponto paradoxal me chamou atenção: as vinte pessoas feias mais sexies do mundo. Parece inacreditável, mas alguém realmente dedicou preciosas horas para eleger pessoas que, embora destoem do padrão de beleza vigente, conquistam pelo inegável sex appeal. Aparecem por lá as mais diversas — e controversas — figuras, como Iggy Pop, Woody Allen, Amy Winehouse e, pasme!, Marilyn Manson. Estranhamentos a parte, a faísca estava lançada. O que torna alguém sexy? Já se nasce assim? Aliás, que diabos significa ser sexy?

De maneira literal, sexy está intimamente ligado ao erotismo, o que, por sua vez, remete à libido. Partindo-se do conceito, é plenamente possível “fazer-se sexy”: bastam, por exemplo, cabelão batido, boca semiaberta, olhos semicerrados, roupa decotada, tanquinho bem marcado e roupa íntima pequena (ou ausente). Cria-se, assim, a couraça de uma personagem, verdadeiro teatro de cálculo e expertise. Copia-se o olhar de um, a roupa de outro, as frases de um filme sensual e o resultado é um “sexy boom”.

Tudo isso se potencializa ainda mais se o recheio for alguém lindo, dentro das definições atuais de lindeza. É claro que Paolla Oliveira caminhando de costas e seminua ao atravessar uma cortina esvoaçante é mesmo muito sexy. Infelizmente, porém, essas técnicas de revista podem dar certo por algumas horas, mas a realidade é que alguém realmente detentor desse atributo raramente se mantém voltado à sexualidade o tempo todo, ao menos não de forma intencional, do contrário, atores e atrizes pornôs figurariam no topo das listinhas infames.

Confesso que, quando penso em sexy, evoco muito mais o olhar de Scarlett Johansson do que a explosiva cruzada de perna de Sharon Stone em “Instinto Selvagem”; mais a sobriedade desconcertante de Keanu Reeves (cinquentão!) do que o tanquinho bem marcado de Henry Cavill; e mais a voz de Alex Turner escorrendo em “Knee Socks” do que qualquer outra coisa. Há algo de intangível em ser sexy, uma aura despretensiosa de quem sabe de algo ignorado pelo resto. Isso pode residir em alguém seguro, imponente e altivo, mas também há de se apresentar no sorriso tímido dos incertos ou em suas piadinhas autodepreciativas. A regra é a não regra, esse seleto grupo guarda o segredo tão a sete chaves que, não raro, chega a desconhecê-lo.

A verdade é que, na maior parte das vezes, sexy tem mais a ver com um estado bruto, despido, honesto e entregue. Uma amiga confessou que uma das coisas mais sexies que já presenciou na vida foi uma bela sutileza. Ela comia bolo quando conheceu um rapaz que a fez sorrir desordenadamente. Um discreto farelo saltou ao braço dele e, antes que ela conseguisse se desculpar, o rapaz naturalmente levou-o até a boca e continuou a conversa como se nada tivesse acontecido. Ele sequer desviou o olhar. O que mais a encantou foi a espontaneidade da coisa, e surtiu tamanho efeito que foi como se as pessoas em volta tivessem testemunhado um beijo indiscreto.

A estranha — porém compreensível — confissão só deixa claro que se trata, sobretudo, da apreensão individual de uma sutileza. É possível que o misterioso fenômeno do sexy resida nas menores coisas: no silêncio estratégico, na sacada inteligente, nos cabelos bagunçados em coque preso com caneta, nas covinhas das costas, no comentário sagaz, nas veias saltadas dos braços, na mão que sobe ao próprio pescoço na hora do desconcerto, no contato com o hálito quente, nos lábios contra a taça de vinho, na sagacidade da observação, na ausência de maquiagem, no olhar lançado de baixo para cima… seja o que for, por um momento, uma vítima vê seu tempo psicológico congelado e derretido, sem chance de resgate.

O tal ser sexy bagunça o processo sinestésico e desmorona um universo num sorriso-monalisa; vive em estado de crueza e nudez vestida capaz de fazer com que aqueles à volta se pareçam com árvores de natal. Assim, acima de tudo, ser sexy é não caber em categorias, dispensar editora, fotocópia, modo de preparo e racionalidade e, se eu conhecesse receita capaz de caber nesta crônica, não ousaria revelá-la, apenas para ver esses seres desconcertantes nos intrigarem por aí.

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