Reflexão

Ausências

Escrito por Lara

De repente, o filme acabou e você não entendeu muito bem o final, não lembra direito se a atriz era loira ou morena e não faz ideia se o vilão era Robert Redford ou Richard Gere. Você está com gosto de pipoca na boca e se assusta por ter comido o saco inteiro sem sequer lembrar de ter mastigado tantas vezes. Alguém faz um comentário engraçado sobre a história e todo mundo cai na risada. Você não ouviu o que foi dito, mas dá um belo sorriso amarelo, enquanto imagina se a zeladora se esqueceu de colocar a conta de luz na sua caixa de correio. A lâmpada do farol direito precisa ser trocada, seu chefe quer um relatório para quarta-feira de manhã, alguém precisa fazer a matrícula das crianças na natação e comprar o presente de aniversário de sua avó. Amanhã tem reunião de pais, talvez seu remédio para pressão esteja vencido e, pelas últimas contas, esse mês vai ter cheque especial.

Em suma, você estava imerso em qualquer lugar do mundo, menos naquele cinema.

Por vezes, uma agonia insistente se espalha pelos poros, provocando a sensação de que nunca estará em dia com problemas e pendências do dia a dia. Então, você morde o canto dos dedos, arranca alguns fios de cabelo das têmporas, cria vício em balas de café, ou desenvolve um tique qualquer.

Um dia, ao ticar todos os pormenores de sua agenda, você se premiará com o desfrute de um momento maravilhoso de relaxamento. Primeiro a obrigação, depois a diversão, como diria mamãe, certo? O lazer é um prêmio e deve ser merecido. Talvez na sexta à noite, quem sabe sábado de manhã. No máximo domingo. Faltam apenas seis itens da lista, quem sabe dá tempo. Mas chegam sexta e sábado e domingo. E chega segunda novamente e a lista já dá voltas em seu pescoço…como uma forca.

Sua vida tornou-se uma forca e você, um cão correndo em círculos atrás do próprio rabo. O ponteiro do relógio gira em torno do eixo duro, num compasso universal e impiedoso. O espelho reflete uma sombra de afazeres urgentes, agenda lotada e rugas mal-humoradas de alguém que quase não se vê.

Você reverberou bem a risadinha amarela pelo comentário do filme, mostrando novamente sua melhor especialidade: encarnar o desenvolto e articulado ser social. Essa coisa do terno bem passado, do cabelo penteado, do passo confiante e do bom dia triunfante. Parabéns.

De repente, você pulou dos 20 aos 50 com a estranha sensação de ter deixado algo para trás.

Amigo, algo está mesmo ficando para trás.

 

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