Reflexão

Como encarar os erros do passado?

Escrito por Lara

Desde que o mundo é mundo, o homem procura compreender o que é o tempo, este fenômeno inevitável e insondável capaz de trazer rugas, alívio, verdades, sabedoria e tantas outras coisas.

Das certezas da vida, uma é a passagem do tempo. Façamos o que for, ele irá passar, impiedoso e imponente, escancarando a cada instante a impotência do homem, que se julga imperador absoluto do universo.

A batalha contra o tempo já nasceu perdida. Ainda não há, ao menos na pequenez do homem médio, a possibilidade de contra ele triunfar. Resta apenas propor, de joelhos, uma reverencial parceria, buscando, em sua irremissível passagem, a possibilidade de coexistência pacífica. Uma bandeira branca, por assim dizer. Um humilde cessar-fogo.

Em lampejo de piedade, o tempo oferece ao homem a possibilidade de transmutar-se, melhorar-se e acumular experiências que lhe possam ser úteis em dias vindouros. Desde Heráclito, já é sabido que “não se banha duas vezes no mesmo rio”, pois que o rio não é o mesmo, assim como seu banhista. O tempo passa, a vida flui, e de repente o homem se vê outro, diferente em suas perspectivas e compreensões, nadando em águas renovadas de seu rio particular.

Do auge de sua vivência, no entanto, por vezes se atreve a mergulhar em águas passadas e sofrer por capítulos errados da história que já construiu. Condena-se por atitudes pretéritas, por estupidez cometida em épocas de pouca experiência e maturidade, revivendo intensamente as más escolhas de tempos que não voltam mais, chicoteando-se hoje por quem fora ontem.

Não adianta, homem. Não adianta. Hoje se é alguém diferente do que já se foi. Julgar-se com os olhos de hoje, construídos após suados degraus de experiência, é como desejar que uma casa esteja inteiramente construída com a colocação de um só tijolo. Simplesmente não faz sentido. O homem que se foi ontem deve ser enxergado pelos olhos do homem que se foi ontem. Se más escolhas foram feitas, resta apenas trabalhar agora para que outras melhores sejam tomadas, utilizando os caminhos tortuosos do passado como aprendizagem.

“Eu fiz um acordo com o tempo. Nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Qualquer dia a gente se encontra e, dessa forma, vou vivendo intensamente cada momento.”, disse o gênio carioca Mário Lago, levantando a bandeira branca. Ao fazer as pazes com o tempo, fez também as pazes consigo, permitindo-se errar, e cair, e se levantar, só para cair novamente e começar tudo de novo.

Então, o que fazer com tantos erros, tantas dúvidas e desacertos? Talvez a primeira coisa seja não imaginar o que teria ocorrido se tudo tivesse passado de  maneira “correta”. Certamente, fosse esse o caso, outras dúvidas e frustrações se teriam construído. É a sina do livre-arbítrio: quanto mais possibilidades  há, maiores são os questionamentos sobre a certeza do caminho escolhido. Talvez a pergunta mais acertada seja: “sou hoje a melhor versão que posso ser de mim?”

Ao se dar uma chance a cada dia, Mário Lago terminou a vida em paz com todas as suas versões construídas ao longo do tempo. “Sou como Edith Piaf, ‘Je ne regrette rien’” (não lamento nada). Fiz o que quis e fiz com paixão. Se a paixão estava errada, paciência. Não tenho frustrações, porque vivi como em um espetáculo. Não fiquei vendo a vida passar, sempre acompanhei o desfile.

Que se use  a maturidade para olhar os erros do passado com benevolência e compreensão, e não para se julgar  com os olhos de hoje. Como bem disse o poeta, a vida é um desfile a ser  acompanhado. Uma enorme passarela a ser percorrida sem olhar para trás e sem perder tempo remoendo o que não volta mais.

 

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18 comentários

  • Que delicia de texto para um domingo a noite. As lamentações fazem parte do ser humano, mas também fazem a esperança de errar menos, o renascimento, o surgimento de novas ideias… E assim vamos levando, só não vale ser passageiro no trem da própria vida.

  • Erros e passado são “dois presentes” que vivem conosco pela existência.
    Tudo é aprendizado e experiência, mas mesmo acreditando nisto eu tenho dificuldades de aceitar os meus erros.
    Gostaria de ter a sabedoria do grande Mario Lago de não lamentar…
    Depois de ler bons textos como o seu, me sinto mais aliviada sobre o assunto.
    Tento criar o hábito de não exigir de mim mesma compreensão e perdão imediatos, mas aceitação e esperança de que posso sempre recomeçar.
    Arrependo de algumas coisas.
    Mas entendo que existem propósitos pra escolhas certas e erradas.
    Que bom que eu faço parte desse Universo dinâmico e dessa vida que me conforta com as palavras de Mario, de Edith, de Lara…

    • Rubia, adorei seu comentário. Com certeza, esses presentes nos tornam pessoas mais sábias e “limpas”.
      E assim, vamos nos melhorando dentro de nossa pequenez. Obrigada pelo apoio e pelo carinho. Espero ter sua visita sempre por aqui!!

  • Minha querida sobrinha e afilhada,e uma bela e verdadeira reflexao,concordo com quase tudo,mas temos o triste habito de continuar lutando contra ela,e estranho que mesmo conscientes,continuamos em grande parte das vezes,opondo resistencia!Parabens,bjs e q Deus te abencoe sempre.

    • É verdade, padrinho. Como bem sabemos, aqui é erra de expiação. Não daria para esperar de nós nada mais do que um caminhar lento e cheio de resistências. Obrigada pela visita ao blog. Espero que tenha gostado! Beijos!!

  • Primeira visita aqui.
    Entrando e já amando.Parabéns!!!!
    Texto fenomenal!
    Sucesso pra você e obrigada por compartilhar tudo isso conosco. Somos privilegiados. Beijos!

    • Bruninha, o privilégio é meu por ter vocês para dividir as ideias. Obrigada de todo o coração pelo apoio. Sem você, provavelmente este site não existiria. <3

  • Esse texto transcendeu minh’alma. Senti minha relação com o tempo sido transcrita por você. Como se vc visse a vida através dos meus olhos… Fiquei impressionada!
    Lara, vc é espetacular!
    Tenho muito orgulho de você!
    Bjs!

    • Simone, devo mesmo ser espetacular, afinal, venho conseguido te manter em minha vida há um tempo considerável!!! Rs! Fico muito feliz por ter gostado do texto. Para variar, dada a sua identidade com as palavras, ficou claro o quanto vemos o mundo de forma parecida! Super beijos. Saudade de vc!

  • Por muito tempo mantive o sofrimento de ter feito ‘coisas’ no meu passado. Tornando um peso acorrentado no meu presente. Até encontrar alguém, que me ensina-se, que o presente e o futuro são possibilidades do fazer bem feito – fazer o bem para si e para toda humanidade são as duas prerrogativas da evolução humana. Que devemos aprender, cada um dentro da sua própria vida, perdoar a si mesmo. Os seus erros e dificuldades. E a partir daquele momento de compreenção. Ter sempre o anelo de superar dia a dia sua condição. Observando, selecionando pensamentos na mente, para uma melhor atuação diária. Atentando para o monstro mental do passado não aterrorizar meus dias de serenidade.

    • Fico muitíssimo feliz por você ter arranjado alguém que te faça enxergar a vida dessa forma, e te permita tirar um peso tão grande das costas. Grande abraço, Petrônio.

  • Não existe um só erro que cometemos. Existem muitas experiências que não conhecíamos. Nós humanos temos que forçar nossos pensamentos depois dos erros ou dos acontecimentos para que sejamos capazes de seguir bons caminhos. O certo e o errado o ser humano de um jeito ou de outro saberá. Continui seus pensamentos escritora.

    • Concordo, Leonado. E, muitas vezes, o que parece certo em determinado momento pode acabar por ser tido como “errado” em análise posterior. Mudamos sempre, como um rio… Obrigada pelo comentário. Abraço.

  • Seus textos são como combustíveis para nós Lara.
    A cada leitura novos pensamentos vão surgindo em nossa mente, tornando a vida mais leve e mais interessante.
    O tempo só não é tão perfeito por não ter nos aproximado antes… rs Mas sempre é tempo de novas amizades!!
    Parabéns mais uma vez!
    Grande beijo.

  • lara, gostei do texto. Espelha o meu pensamento e gostei bastante de conhecer a citação do Mario Lago que você apresentou ( Eu ja entrevistei o Mario Lago uma vez, quando era adolescente, para o jornal da escola, levado por um professor, que era parente dele.). Hoje procuro viver a vida com calma. Este papo de viver intensamente só gera ansiedade que acaba fazendo a gente morrer mais cedo. Se confunde intensidade com furia, velocidade, correria, perigos. Eu prefiro profundidade, contemplação, calma. Venho tentando. Não é facil chegar lá. Mas tento.