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A culpa é sempre do estagiário: um texto para quem sabe os altos e baixos de sobreviver a um estágio.

Escrito por Lara

Texto originalmente publicado na Revista Bula.

Ah… o estágio! Aquele momento sensacional em que finalmente se pode começar a ter contato real com a profissão escolhida, e o melhor!, de forma remunerada, digna, ao lado de pessoas experientes e respeitosas. Pelo menos é o que se pensa antes de ingressar nesse ofício…

Após percorrer a cidade para distribuir cem currículos e roer todas as unhas à espera de uma entrevista, conseguir o primeiro estágio é lançar-se num rito de passagem. Deixa-se de ser calouro “barriga-verde” da faculdade, para tornar-se um veterano legítimo, exalando superioridade, descolamento e um leve ar de deboche pelos mortais que ficaram para trás. Até porque, em tempos de crise e faculdades hiperinchadas, há algo de heroico em quem consegue um “trampo” congruente com a área estudada.

Um estagiário no primeiro dia do ofício parece menino criado com vó, a caminho do primeiro dia de aula: discurso pronto, cabelo arrumadinho e com gel, roupa passada e engomada, perfume importado, meias limpas, uma pastinha com post-its, cadernos, agenda e um estojo de canetas coloridas para organizar as anotações. Tudo como manda o figurino e nos devidos conformes, afinal o negócio é sério e ele decidiu adotar a postura de ser humaninho organizado (ainda que a gaveta de meias divida espaço com cabos de videogames, chocolates escondidos e uma coleção de história em quadrinhos).

Devidamente apresentado ao chefe e aos colegas de trabalho, já vislumbra sua linda mesa e seu computador de última geração. Mas, opa!… não era aquela! Alguns metros à frente e chega ao seu real espaço, um quadradinho em que cabem um laptop modesto e um providencial copo de café (fiel companheiro que, aos litros, acompanhará sua saga). Apenas. Os cadernos e canetas terão de ficar no chão mesmo. Glamour zero. Mas é isso aí — ele pensa esperançoso — ninguém chega por último e se senta à janela. O espaço deve ser conquistado. E então, ainda meio atrapalhado e sem conhecer suas incumbências direito, ele se dedica como um leão às tarefas que lhe são incumbidas. Antes de perceber, está levando trabalho para casa e esticando as horas de trabalho para dar conta do recado.

Com o passar dos meses, o estagiário descobre suas duas funções primordiais: levar a culpa e fazer serviço de office boy, além de servir cafezinho, é claro, mas isso nem conta, é como um contrato tácito assinado por todos os membros da ala. Ele já aproveita e bebe a metade da garrafa a cada vez que serve, já que terá que passar a noite em claro estudando para a prova da faculdade e terminando de resolver os pepinos que um ou outro assistente mais enrolado lhe determinou.

O número foi digitado errado? Ih, deve ter sido o estagiário; o prazo de protocolo foi perdido? Esse estagiário desatento…; o papel sumiu? O estagiário deve tê-lo lanchado com café. Mas, no meio de toda a balbúrdia, ele capta uma manha de lidar com cliente, uma teoria pouco conhecida, a indicação de bom livro e, sem que se dê conta, entre muita culpa e pouco espaço na mesa, aprende a resolver problemas que sequer sabia que existiam, desenvolve jogo de cintura para conversar com o chefe e já está sendo convidado para todas as festinhas do departamento.

Num piscar de olhos, deixa o gel e as canetas coloridas de lado; aprende a ser eficiente com o cérebro, desenrolado com o discurso e descolado com as roupas. Sem que perceba, conquista o chefe, adere ao vocabulário da área com naturalidade e começa a compreender as explicações da faculdade sob um viés prático. De repente, completa seu ciclo de estágio e está na hora de se despedir. Quem sabe seja contratado pela empresa, quem sabe já queira alçar voos mais altos… A realidade é que estágios — remunerados ou não, pouco ou nada glamourosos — são experiências de humildade e paciência. Só quem foi um bom estagiário poderá ser um bom líder. Até lá, que o cafezinho seja servido com presteza e a culpa, carregada com leveza

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