Contos Reflexão

Diálogos

Escrito por Lara

O homem encara novamente sua esposa naquela madrugada. Não entende por que se casou com aquilo: poucas virtudes, pouca beleza, poucas palavras sábias e muita acidez. Pega o casaco e sai de casa. Encostado no balcão, scotch na mão, conhece a primeira, doce e meiga primeira: “Sou a santa, o anjo e a paz. Sou a luz que te redimirá, a doçura em forma de verbo, favor, dever e mocidade. Sou a Amélia de bom gosto e bom grado, vestido branco e sorriso estampado. Sou perfeita para você.”

Não gosta muito. Mais dois scotch, conhece a segunda, devastadora e despudorada segunda: “Sou a louca e a puta. Sou o copo que transborda do qual você beberá, a luxúria personificada, a carne macia e sem culpa ao seu dispor. Sou a vida que lhe falta, pecado voluntário, promessa e cumprimento. Sou perfeita para você.”
Não gosta.
Um bêbado se encosta no balcão ao seu lado. “E aí, amigo? Fazendo o quê aqui há horas?” “Pensando em qual das duas que conversaram comigo no balcão eu escolho.” “Amigo, você falou sozinho pelas duas últimas horas. Ouvi altas confissões suas, sabe? Coisas que nem queria ter ouvido.” – tira algo do bolso e entrega ao homem – “Vá pra casa, deite-se ao lado da sua mulher e abra meu presente. Ele vai te ajudar a pensar”. Exausto, o homem chega em casa nos primeiros raios de sol. Deita-se ao lado da esposa e abre o presente: um caco de espelho sujo.

No canto, em letras cursivas e tortas, lê, ouvindo a voz do bêbado: “nada muda se você não mudar.”

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