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Intimidade entre amigos: aquela bizarrice que só vocês entendem.

Escrito por Lara

Texto originalmente publicado na Revista Bula.

Tem melhor amigo que é irmão de sangue, primo de quarto grau, ex-paquera, vizinho de porta… Alguns moram em outro país, mas se fazem tão presentes que o calor de seus abraços transcende qualquer hiato. Seja como for, só quem tem um amigo esculachado sabe a delícia de se comunicar sem papas na língua. Comunicação tête-a-tête, rasgada, sem pó compacto nem protocolos de bom português.

Irmãos de alma têm até dialeto próprio: um compilado de “memes” e expressões que soariam insanos a qualquer ouvido desavisado, cujos significados nem Aurélio seria capaz de enumerar. As expressões se constroem ao longo dos anos de histórias divididas, e o aglomerado de experiências em conjunto é capaz de formar uma enciclopédia que não comporta mais de dois entendedores. Amam-se por xingamentos que revelam honestidade, consolam-se por brincadeiras que abrandam as feridas, abrem-se como livros fáceis dos sebos de esquina, zoam-se sem porquês específicos. Sua intimidade faz com que comportamentos bizarros demonstrem a mais pura forma de cuidado e ternura. O dicionário da amizade só não aceita expressões bobocas como “eu avisei” e “não conta para ninguém, por favor”. Seria um insulto dizer o óbvio para quem já vive em grau de telepatia.

Um amigo bem treinado sabe ler nas entrelinhas de expressão facial do outro qualquer ruguinha fora do lugar. É provável que os momentos de maior intimidade sejam aqueles nos quais impera silêncio eloquente: ele reconhece a tristeza antes mesmo de você o fazer e, mais que prontamente, está em sua casa com um pote de sorvete e um ombro mais bem-vindo que prêmio de loteria.

Parceiros de alma falam com jeitinho que o outro está com bafo, que arrumou um namorado estranho ou que a roupa não cai bem. Mas também sabem passar um sermão reflexivo e direto quando mais se precisa — e menos se quer — ouvir. Afinal eles não estão lá apenas para fazer cafuné, mas a serviço do que acreditam ser o bem do outro. O bem, como se sabe, vem com a crueza da verdade.

Não é preciso mais que um olhar para que o radar do outro capte tudo e mais alguma coisa. Se há mais gente por perto, basta a íris encontrar o canto do olho e a mensagem já será decifrada com sucesso para, certamente, render boas gargalhadas e alfinetadas depois. Outras vezes, no entanto, esquecem-se de que estão no meio de mais gente e ficam completamente bobos, rindo de tudo e de nada, dando-se soquinhos de cumplicidade no ombro, embevecidos pelo universo paralelo dos relacionamentos sólidos. Ninguém entende nada, mas e daí? Se explicassem, entenderiam menos ainda.

Amigos têm essa conexão esquisita que transcende a lógica. Mas quem precisa de lógica quando se tem a certeza desse amor?

 

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