Contos

Nostalgia

Escrito por Lara

2035.Um meme estampa o livro digital de meu sobrinho, que sorri ao meu lado, enquanto escolhe na papelaria seus materiais escolares deste ano.A figura é de Barack Obama com os lábios repuxados para baixo, ilustrando a frase “No, we couldn´t”.É a História contemporânea, com ênfase no fim do império norteamericano.

Enquanto ainda não acredito na rápida decadência da filosofia que regeu minha juventude, meu sobrinho não sabe direito quem é Obama. Sabe que está vivo,um negro sorridente de cabelos brancos, mas o vê como História, enquanto ainda o vejo como notícia. Tipo como eu via Chico Anysio aos 20.Uma pena.

Como o tempo voa! Estou com quase cinqüenta e sinto que vivi nem um terço do que planejei. Estou feliz, no entanto, pois hoje entendo que os planos dos muito jovens não contam com o envelhecimento do corpo, nem do espírito.São planos para um eterno descolado de cem anos viajando loucamente e gastando a aposentadoria que chegará menos polpuda e mais tarde que o planejado. Sorrio.

Sinto um pouco – só um pouquinho – de falta dessa falta de juízo.

Abro um caderno com a ilustração do novo desenho oriental da moda e inalo o aroma do plástico. Nostalgia gostosa, lembro-me bem dos cadernos com capa de plástico! Transmitiam a esperança de um ano mais dedicado que o anterior, o que implicava apenas caprichar na letra do primeiro ao último dia de aula.

Nunca deu certo.A letra sempre acabava um garrancho no fim do ano. Estranho pensar que meu sobrinho talvez jamais conheça essa sensação. É que estou na seção destinada aos nostálgicos, que ainda apreciam papel e caneta, enquanto ele escolhe sua nova versão digital de caderno, cujo nome ainda não sei pronunciar. Algo bem mais complicado que iPad.


De repente, vejo meu pequenino todo inseguro, o olho marejado. “Tia, você acha que serei um bom aluno esse ano? E se eu for igual ao Gabriel e bombar? Aí não vou poder viajar nas férias!”. Dou-lhe um abraço e digo palavras encorajadoras. Ele retribui, sorvendo meu calor, apertando minha cintura. Adoro aquele protótipo e a esperança que ele me passa.

Pensando bem, talvez o tempo tenha voado só um pouco e as coisas não tenham mudado tanto assim.E sorrio novamente.

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