Reflexão

Por uma vida mais “Lean”

Escrito por Lara

 

Em algum momento prematuro de nossas vidas, fomos ensinados a compartimentar o conhecimento. Ensinaram-nos a criar “gavetas” mentais para guardar as diferentes matérias: quando a professora de matemática entrava, fechávamos a “gaveta” de ciências; quando era a de português, fechávamos a de artes, afinal de contas, não havia interseção alguma entre uma as disciplinas, certo?

Grande parte de nós adotou essa estranha metodologia, carregando-a para os diversos campos da vida. Tornamo-nos “humanos-frankstein”, pouco fluidos, carregando conhecimentos incríveis, porém recortados e tristemente inseridos em caixinhas isoladas. Em um museu, por exemplo, apreciamos arte como técnica artística: “é barroco?”, “é impressionista?”, raramente pensando nas razões psicológicas que impulsionaram o artista, ou, ainda, na matemática sob as linhas calculadamente dispostas. Em um jogo de futebol, não raro fazemos uma leitura meramente esportiva, sem nos darmos conta do fenômeno sociológico, físico ou filosófico escondido por trás dos chutes e cabeçadas.

De uns tempos para cá, tenho me esforçado para ser mais inteira, fluida e completa. Venho tentando esticar meu limitado conhecimento à vida como um todo, misturando-o e procurando sua utilidade nos mais inusitados setores, desde as coisas mais simples às aparentemente mais complexas. Aprendi, por exemplo, que o escovar dentes com a mão esquerda e o estacionar em uma vaga diferente a cada dia me tornam mais alerta e estimulada. Foi preenchida por esse sentimento de integração que, em uma dessas aulas protocolares de pós-graduação, deparei-me com a teoria do “Lean Manufacturing”. Após certa resistência e algumas incursões inadequadas no whatsapp, decidi me entregar inteiramente à aula. “Sê todo em cada coisa”, lembrei a mim mesma. Se escovar os dentes com a mão esquerda poderia exercer um curioso poder agregador, o que dizer de uma aula ministrada por um doutor, não é?

A filosofia básica do “Lean” é simples: eliminar desperdícios. Seu berço remonta ao Sistema Toyota de Produção, pelo executivo Taiichi Ohno, na década de 50, a fim de reduzir custos e aumentar a qualidade e a velocidade da entrega de produtos aos clientes. Basicamente produzir mais com menos, o que lhe rendeu o nome ” Lean Manufacturing”, traduzida para português como “produção enxuta”. Eficácia máxima, sem esperdício de energia, alcançando-se o máximo possível de valor.  Uma vida enxuta, cujo “dress code” a ser obrigatoriamente respeitado são os verdadeiros e mais profundos valores. O que mais um ser humano poderia desejar para sua própria vida? Enquanto eu assistia à aula, aquilo definitivamente foi fazendo sentido, mas sob um prisma inusitado. Valia a pena investigar mais a fundo a aplicabilidade do “Lean” a uma empresa de carne, osso, sangue e hormônios borbulhantes.

Em meio a toda teoria, os 5 princípios norteadores se mostraram bem definidos e sua transposição para a realidade humana soou tanto possível, quanto deveras desejada. Era a Administração se atrevendo a bicar a Psicologia, lançando sugestões plausíveis de otimização da vida humana e oferecendo concretas possibilidades de melhoria em sua qualidade.

1- Especificar valor: considerando-se que a necessidade do cliente gera valor, o pensamento “Lean” prega que ela deve ser bem compreendida, a fim de gerar o valor exato desejado pelo cliente. Quem é nosso maior cliente? Quem arca com os prejuízos de nossas más escolhas? Quem dorme em paz quando estamos sabidamente trilhando um bom caminho? Nós. Sob uma perspectiva realista, portanto, quando se trata de empresa de carne e osso, o maior cliente de nossas próprias vidas somos nós. Parece óbvio, mas não é. Nossas maiores frustrações costumam estar diretamente ligadas à ausência de fidelidade a nossos valores individuais. Basta olhar ao redor e perceber quantos jovens fizeram cursos superiores que não desejavam ou quantos casamentos claramente falidos se mantêm de pé por razões eminentemente sociais. A convivência com semelhantes carrega uma tênue linha entre a necessária adequação e a despersonalizadora sucumbência. Adequar-se até certo ponto permite um trânsito social saudável, mas sucumbir até não mais se reconhecer é o caminho para a frustração. Contanto que nossos valores respeitem os do próximo, simplesmente não faz sentido abandoná-los. O livre arbítrio, para os felizardos que o detêm, é uma dádiva maravilhosa que por tantas vezes vem sendo desperdiçada com escolhas pautadas em valores alheios. Suas escolhas são suas e de mais ninguém. São seus valores, é a sua vida. Seu trabalho, seu casamento, seu dinheiro, sua religião, seus amigos. Quer se mudar para a Malásia? Quer virar vendedor de coco? Quer adotar o poliamor? Faça isso, por favor. De nada adianta estar socialmente incluído e “adequado” e viver uma vida que não entregue valor ao seu maior e mais incrível cliente: você.

2- Identificar o fluxo de valor: classificar os processos em três categorias – aqueles que efetivamente geram valor, aqueles que não geram valor, mas são importantes para a manutenção dos processos e da qualidade e aqueles que não agregam valor, devendo ser eliminados imediatamente. Aqui, nosso scanner mental deve ser ativado para fazer a leitura mais acertada. A fim de alcançar nossos valores, alguns processos nem sempre são agradáveis, mas são indispensáveis. Se desejo muito ser professora titular de uma retomada universidade, preciso fazer um mestrado. Pode ser que esse não seja meu projeto preferido, mas ele é necessário, faz parte da construção de um valor que me é muito caro. É isso, tem que fazer.

Outros processos, por outro lado, são verdadeiro desperdício de tempo, energia e sabe-se lá que outros preciosos recursos. Provavelmente, um mestrado não interessa ao cara que tem como objetivo vender coco na praia. É muito comum entupirmos nosso dia a dia com atividades que não geram valor por si sós, tampouco necessárias para a construção do caminho até ele. Se analisarmos nosso dia, hora a hora, veremos quanta energia desperdiçamos fazendo coisas inúteis e perdendo valiosas oportunidades, especialmente quando adotamos expectativas alheias como nossas. O filho de um conhecido de minha família sempre foi apaixonado por viola, um dedicado e brilhante músico. Ele cresceu ouvindo que deveria ser administrador de empresas, pois esta era uma profissão digna a ser exercida por um homem de bem. Sua mãe ficaria muito orgulhosa. Esmagadorameante obediente, ele passou uma universidade, cumpriu toda a grade e se sagrou como tal. De beca e capelo, cumpriu todo o protocolo para, ao final da cerimônia, entregar o diploma nas mãos da mãe. “Realizei seu sonho, minha mãe. Agora vou realizar o meu”. Hoje toca em vários países da Europa e se tornou um dos maiores violeiros do Brasil. A verdadeira liberdade é fruto da compreensão visceral de si mesmo, conquistada a custo de constantes e persistentes provações sociais. Talvez seja a forma mais difícil de expressar-se, mas certamente a mais genuína. “Nossa liberdade hoje não é nada mais que a livre escolha de lutar para nos tornarmos livres. E o aspecto paradoxal desta fórmula exprime simplesmente o paradoxo de nossa condição histórica. Não se trata de enjaular meus contemporâneos: eles já estão na jaula.” (Sartre).

3- Criar fluxos contínuos: deve-se conferir fluidez aos processos, excluindo-se a cultura aos departamentos e buscando a integração. Talvez aqui a escovação de dentes com a mão esquerda se encaixe bem. Somos unos, inteiros. Biologia não deveria ficar guardada em sua gavetinha, assim como história ou português. Existe uma interdependência que transcende o limite do imaginável. A língua portuguesa conta a história da evolução biológica. A arte exprime a condição psicológica do artista. O conhecimento é uno, assim como o próprio ser humano. Se estou muito infeliz com meu relacionamento familiar, as outras searas de minha vida evidentemente serão de alguma forma afetadas, como a produção no trabalho. A unidade há de ser respeitada. Somos um fluxo contínuo de ações, intuição, intelecto e sentimentos, de maneira que compreender cada uma dessas vertentes como um universo isolado faz tanto sentido quanto ouvir separadamente os instrumentos de uma sinfonia.

4- Primar pela produção puxada: buscar produção de estoque de acordo com as previsões de consumo. Ao invés de empurrarem a produção para o consumidor, aguardam que estes a puxem, valorizando, assim, o produto. Aqui é um dos maiores gargalos de desperdício de energia humana. Empreendemos energia antecipada e desnecessariamente, basicamente envelhecendo antes do tempo sem a menor utilidade. Sofrimento antecipado e ansiedade desmedida são bons exemplos. Vivemos tanto o dia de amanhã que deixamos de sorver o hoje. Chegamos ao ponto de sofrer por coisas que sequer têm possibilidades reais de um dia talvez vir a existir. “E se meu novo negócio não der certo?”, “e se eu me casar e descobrir que nós dois não damos certo?”, “e se, aos 50 anos, eu ainda não tiver saído da casa de meus pais e ganhado dinheiro?”, “e se eu não passar no concurso?” É claro que certo grau de cautela faz bem e nos torna mais preparados, mas qualquer excesso nesse sentido não passa de um dreno eficaz para desviar energia.

5 – Buscar a perfeição: Na empresa de carne, osso, humores e imperfeições, talvez seja mais sensato falar em “equilíbrio” em vez de “perfeição”. E é nesse ponto que não mais me atrevo a criar interseções entre o “Lean” e o homem. Não somos empresas, nem máquinas, não somos toyotistas, fordistas ou tayloristas. Sequer corremos o risco de alcançar a perfeição, graças a Deus. Afinal, é a certeza da imperfeição que nos motiva a melhorar a cada dia.

Uma parte da Psicologia adota um pentagrama como metáfora das cinco principais dimensões da atividade humana. Em análise multidimensional, o homem é compreendido a partir de cinco prismas: físico, afetivo, racional, social e espiritual. Não existe uma fórmula, mas este parece um bom espelho. Quando essas cinco vertentes entram em harmonia, o homem se encontra em paz e, por que não?, “enxuto”. De tão simples, as cinco pontas parecem guardar em si um mistério pelo qual vale a pena lutar por toda uma vida: o ponto de equilíbrio de si mesmo.

Pergunto-me quem foi Taiichi Ohno – o homem, e não a lenda. Pouco encontrei sobre sua vida privada. Sem dúvida, Taiichi enxergou na simplicidade um segredo com potencial para revolucionar máquinas, processos, empresas e, principalmente, homens: o respeito aos valores mais genuínos e viscerais. Ninguém é mais capaz de compreender a alma do que seu próprio dono, afinal, “Quem poderia melhor do que eu pintar-me tal como sou? A menos que haja alguém que pretenda conhecer-me melhor do que me conheço eu mesma.” (Roterdã).

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4 comentários

  • Como é gratificante ler um texto deste em um momento da minha vida em que me sinto tão jovem e ao mesmo tempo tão “experiente”! Hoje tenho uma personalidade que posso chamar de minha, e ler suas palavras me fazem querer ser uma pessoa melhor!
    Parabéns Lara. Tenho uma simpatia por você e suas palavras que é algo meio inexplicável!!

    • Karynne, como eu já te disse, a recíproca é totalmente verdadeira.
      Sobre este momento de sua vida, que bom é poder se sentir dona de si mesma, não é?
      Fico muito feliz por ter gostado do texto! Um beijo!!